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O uso indiscriminado dos anabolizantes representa um grave problema de saúde pública

23/01/2012

O uso indiscriminado dos anabolizantes representa um grave problema de saúde pública

Autor: Alexandra Marques

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Fernando Vitor Lima

A temática do uso abusivo dos anabolizantes ainda é pouco explorada no Brasil, no entanto a questão já se configura como um problema de saúde pública, uma vez que um número crescente de jovens tem, cada vez mais, feito uso desses medicamentos como forma de atingirem ideais fantasiosos de beleza corporal. O professor Fernando Vítor Lima, do Departamento de Esportes da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da UFMG, é um dos poucos especialistas no assunto. Doutor em Educação Física pela Universidade do Porto, ele estuda a questão há mais de uma década.
O senhor poderia situar a dimensão do risco, para a sociedade e para o poder público, decorrente do uso indiscriminado dos anabolizantes?
Dimensionar quantitativamente eu acho muito difícil, porque nós não temos dados para isso. Mas sabemos que qualquer procedimento que o indivíduo faça que possa gerar problemas de saúde gera um custo para o Estado. Sabemos, também, que anabolizantes são substâncias que vêm sendo cada vez mais utilizadas.
Quais são os principais problemas de saúde decorrentes do uso de doses elevadas de anabolizantes? A contaminação pelo vírus da Aids e da hepatite C também é um risco?
Os principais resultados do uso indiscriminado são problemas no fígado, câncer hepático, disfunção sexual masculina, alterações no tom de voz, aparecimento de pelos em mulheres, problemas renais e até, possivelmente, aumento de agressividade. Existe um pesquisador que, em 1991, relacionou 69 reações adversas decorrentes do uso de anabolizantes. Quanto à contaminação pelo vírus da Aids e da hepatite C, ela é possível caso haja o compartilhamento de seringas com pessoas portadoras desses vírus, durante o processo de aplicação dos anabolizantes.
O professor e pesquisador Jorge Iriart, da Universidade Federal da Bahia, afirma que há “a necessidade da realização de campanhas de prevenção voltadas aos jovens e centradas, de um lado, na visão crítica e na desconstrução dos valores associados ao corpo na sociedade de consumo, e de outro, na veiculação de informação de qualidade sobre os riscos à saúde no consumo de anabolizantes”. Nesse sentido, o que o senhor acha que o poder público e a mídia podem fazer para criar uma “ambiência informacional”em relação aos anabolizantes?
Muita coisa precisa ser mudada. A única informação que a mídia veicula é sobre os efeitos colaterais, as reações adversas,mais nada além disso. Sabemos também que apenas tratar sobre as reações adversas, do modo como os meios de comunicação fazem, tem pouco impacto sobre o desejo do uso. Portanto, até essas informações sobre as reações adversas têm que ser feitas de outra forma. É necessário que haja um projeto, um programa público para isso.
Campanhas de esclarecimento não seriam um caminho?
Sim, mas as campanhas também têm que ser realizadas com uma outra linguagem. De todo modo, deve-se ter claro que isso não irá resolver o problema. Usar anabolizante é só mais uma prática, dentro das práticas sociais de uso de medicamentos e, hoje em dia, a vida está muito medicalizada, toma-se remédio para tudo. Então, campanhas educativas voltadas ao público jovem são apenas uma ação a mais, dentro de um problema muito mais complexo e amplo que se insere na sociedade como um todo, pois o mundo dos anabolizantes não está fora do mundo social.
Até o presente momento, eu somente vi campanhas de conscientização relacionadas ao uso de anabolizantes que partiram de entidades esportivas, como o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), por exemplo. Entretanto, elas são voltadas a atletas profissionais, na verdade eles são um grupo à parte, pois se forem flagrados, nos exames antidoping, usando anabolizantes eles serão suspensos.
No contexto mundial, há países que possuem políticas públicas de saúde para tratar a temática dos esteroides anabólico-androgênicos?
Existem países que têm políticas públicas, a Suécia, por exemplo, tinha, até há algum tempo, não sei se ainda tem. Inclusive eu conheci pessoas que lidavam com isso lá. Eles possuíam um programa de linha direta para atender os usuários de drogas, cujo foco eram as drogas “recreacionais”, cocaína, heroína etc. Era um número de telefone para o qual as pessoas ligavam, normalmente usuários, para ter informações sobre o uso dessas drogas. O objetivo era que tais pessoas buscassem alguma assistência, dentre outras iniciativas. Foi verificado que grande parte das pessoas que ligavam eram usuários de anabolizantes e não das outras drogas visadas pelo programa. Os Estados Unidos têm muitas medidas de controle e proibição do uso, em termos de ações ligadas à saúde pública que eu não tenho conhecimento.
Os estudos sobre os anabolizantes ocupam que lugar no âmbito da saúde? A questão recebe a devida atenção?
Anabolizante, na verdade, é uma droga, é um remédio de uso muito limitado na medicina, ou seja, há um grande número de outras drogas que têm um uso muito mais amplo do que os anabolizantes, por isso dá-se menos atenção a eles. No entanto, em relação ao uso não terapêutico, ao uso esportivo e estético, aí sim, parece que vem aumentando cada vez mais a inserção dos anabolizantes como um problema de saúde pública. Haja vista que o esteroide-anabólico androgênico é um remédio usado por pessoas saudáveis que querem apenas mudar a sua estética física e, em decorrência disso, acabam tornando-se doentes. Ou seja, é uma lógica reversa àquela que é prevista para o uso de qualquer medicamento.
Mas o senhor acha que a questão recebe a devida atenção por parte dos órgãos da saúde pública?
Acho que não, ainda há muito a ser feito. Acredito que o que dificulta a abordagem pública é o fato de grande parte do uso não vir à tona, ou seja, as pessoas utilizam o anabolizante dentro de um “submundo” que se fecha em si mesmo, isto é, as pessoas não revelam, publicamente, que são usuárias e não procuram os médicos. Se apresentam problemas de saúde, muitas vezes, tentam resolver por conta própria. Portanto, esse ainda é um mundo ao qual não se consegue ter acesso com certa facilidade, talvez isso colabore para evitar que haja uma assistência por parte dos serviços de saúde.
O senhor acredita que as escolas do ensino médio deveriam tratar a questão dos anabolizantes, em sala de aula?
Sem dúvida, eu imagino que em várias escolas isso já vem sendo feito pelos professores de biologia. Tenho tido alguns relatos de que isso, realmente, ocorre, mas acho que, ainda, é feito de uma maneira um pouco superficial, não muito aprofundada. De todo modo, acredito que já existe algum movimento em relação a isso, porque os adolescentes, os jovens perguntam, em sala de aula, sobre o assunto dos anabolizantes. Eu creio que esse caminho deve ser mais explorado, de forma sistematizada e bem estruturada, para poder tornar-se uma política de escola pública, de governo.
Qual o papel da mídia na configuração do problema do uso abusivo dos anabolizantes pelos jovens?
A mídia tem um papel fundamental a partir do momento em que ela exalta e valoriza o corpo muito musculoso, assim como exalta e valoriza as pessoas que têm esse corpo, independente do que fizeram para obtê-lo. Muitas dessas pessoas passam, inclusive, a forte impressão de que usaram anabolizantes para alcançarem tal corpo. Então, se os meios de comunicação dão muito destaque a isso, com certeza, irão influenciar os jovens. Eu não tenho nenhuma dúvida sobre isso, mas não podemos colocar, digamos, toda a responsabilidade sobre a mídia, pois não é, necessariamente, uma relação de causa e consequência imediata. É um conjunto de fatores, dentre eles essa representação do corpo musculoso, que acaba contribuindo para isso também, dentre outras coisas.
Em que circunstâncias o uso de anabolizantes é recomendado?
Os anabolizantes são remédios controlados, cujo uso deve ser indicado somente pelos médicos. Alguns exemplos de indicações seriam o tratamento de adolescentes e/ou crianças com atraso de crescimento, mulheres, na menopausa, com osteoporose, pessoas que estão convalescendo de algumas doenças e, em virtude disso, estão muito fracas, ou estão em estados de inanição muito acentuados. Nesse caso, o anabolizante é um coadjuvante. De um modo geral, os anabolizantes são usados nos casos em que há alguma deficiência hormonal.

Link original para esta notícia:
http://www.esp.mg.gov.br/noticias/entrevista-fernando-vitor-lima

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Graduação de Marcos de Souza Muniz
* Graduado em Educação Física (EEF-UFMG); (1990)
* Diretor fundador da Academia Wall Street Fitness.(1991)
* Graduado fisiologia do exercício: emagrecimento e hipertrofia pela UFMG 1992
* Graduado Exercício e o Coração pela Associação Médica de Minas Gerais. (1994)


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