05/07/2011
Mulheres ignoram os estereótipos e marcam presença em ringues e tatames
Autor: Correio Braziliense.com.br
Gênero determina erroneamente a adequação para esporte de lutas, diz estudo.
Preconceito é fundamentado no medo sobre a opinião alheia.
O universo feminino mudou muito desde a década de 1960. As mulheres foram para as universidades, entraram com força no mercado de trabalho e também no ringue. Sim, as várias modalidades de luta há algum tempo passaram a ser também coisa de mulher, e o interesse delas por esse tipo de esporte só cresce. Tanto que, nas próximas Olimpíadas, em 2012, em Londres, pela primeira vez haverá competição da categoria feminina de boxe. Todo esse avanço, porém, ainda não foi capaz de eliminar o preconceito sofrido por essas guerreiras, segundo indica uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP).
O estudo desenvolvido pelo educador físico Marco Antônio de Carvalho Ferretti foi fundamentado em entrevistas com cinco lutadoras, todas campeãs mundiais em suas modalidades — boxe, jiu-jítsu, tae kwon do e caratê. Segundo o pesquisador, algumas lutas ainda são predominantemente masculinas. “Isso se deve ao fato de a sexualidade ser relacionada ao gênero em nosso contexto social”, explica Ferretti. Ou seja, a máxima de que lutar é para os homens ainda impera na cabeça de muita gente.
De acordo com ele, muitas crianças são impedidas ou sofrem preconceito por praticar uma modalidade esportiva que não é considerada apropriada para determinado gênero. A justificativa de tal comportamento tem sua origem na família e na escola. “Não há apenas um único culpado”, ressalta. “A família repete o que lhe foi ensinado, e a escola ainda não abre espaço suficiente para a discussão.”
Segundo seu estudo, de maneira geral, a escola não incentiva o esporte feminino e reserva certas modalidades apenas para meninos e outras para meninas. Assim, a maioria dos garotos aprende a gostar de atividades agressivas e competitivas, enquanto as garotas são estimuladas a apreciar práticas rítmicas ou relacionadas às tarefas domésticas. De acordo com Ferratti, na escola, as atividades físicas não funcionam de maneira agregadora e não estimulam o trabalho em equipe, mas sim uma lógica competitiva e de exclusão. O ideal, na sua opinião, seria o ambiente escolar adotar aulas coeducativas, nas quais o professor orienta os alunos contra a intolerância entre meninos e meninas, buscando dar igual oportunidade para ambos.
Na família
A tetracampeã mundial de jiu-jítsu Kyra Gracie, 26 anos, sofreu bastante com o preconceito. Mesmo fazendo parte de uma família de lutadores — foram os Gracies que difundiram o esporte no Brasil e no mundo —, a jovem não conseguiu escapar do machismo. Quando começou a treinar, ainda criança, havia apoio incondicional. Porém, quando ela resolveu competir, seus tios (Renzo, Ralph e Ryan Gracie) foram contra. “Diziam que isso não era coisa de menina, que já estava bom eu treinar de brincadeira. Eles queriam que eu fizesse balé e deixasse isso (jiu-jítsu) com os homens da família”, lembra. Mesmo assim, Kyra continuou com seus planos de se profissionalizar. “Depois que comecei a competir e a me destacar, eles (os tios) deram o braço a torcer e passaram a me apoiar. Hoje, são os meus maiores incentivadores”, comemora.
Para o professor de judô Francisco de Assis Ferreira Rufino, a família ainda é um dos maiores obstáculos para que as meninas comecem a praticar alguma modalidade de luta. Na sua opinião, as escolas têm procurado diminuir o estigma sobre as diferentes modalidades esportivas, criando turmas em que meninos e meninas treinam juntos e recebem o mesmo tratamento. “O problema maior está na cabeça dos pais, principalmente dos mais velhos”, opina Rufino, que dá aulas para garotos e garotas tanto em academias quanto em escolas particulares de Brasília.
Da mesma forma como ocorreu com Kyra, a ex-pugilista Fernanda Caiado, 36 anos, tricampeã pan-americana e bicampeã sul-americana de kickboxing entre 2000 e 2007, também enfrentou resistência de familiares quando começou a levar o esporte a sério. Nos ringues, Fernanda adquiriu respeito, até mesmo de lutadores homens, graças à técnica apurada. Acelino Freitas, o Popó, ex-pugilista brasileiro, campeão mundial em duas categorias, foi um dos que a incentivou a lutar profissionalmente, depois que a viu treinar. Ela então tornou-se a primeira mulher a lutar boxe em Brasília. “Na rua, as pessoas me viam com o rosto machucado e achavam que eu apanhava do meu marido. No ringue, os homens me viam de igual para igual”, conta, achando graça.
Após o nascimento de seu segundo filho, Fernanda parou com as competições e passou a dar aulas de boxe, enfrentando novamente preconceito. “Os alunos não sentiam firmeza em mulher ensinando boxe. Só com o tempo esse comportamento mudou e eles passaram a me levar a sério.” Seguindo sua carreira de lutadora, está sua filha Maria Fernanda Caiado, 6 anos. A pequena se destaca nas aulas de judô e de capoeira. “Minha filha adora luta. Não vou fazer o que meu pai fez comigo. Vou apoiá-la”, conta.
Individualidade
Para a psicóloga Janaína Gomes Oliveira, os pais tendem a repetir a educação que lhes foi dada. Ela explica que o preconceito é mais fundamentado no medo sobre o que os outros podem falar sobre seus filhos. “Existem muitos pais que não deixam as meninas brincarem com carrinhos. Para eles, é mais tranquilo vê-las brincando com bonecas”, exemplifica. “É preciso respeitar a individualidade e levar em consideração o gosto das crianças”, opina a psicóloga.
A empresária Elke Constanti, mãe de Vitória e Ana Carolina, 6 e 11 anos respectivamente, sente-se realizada ao ver as filhas no tatame praticando judô. “Eu tinha vontade de fazer uma luta, mas na minha época não era permitido”, lembra. Para ela, o fato de as escolas hoje oferecerem as modalidades de luta colabora para a igualdade de gêneros. “Não há preconceito dentro do tatame. O próprio professor orienta que a luta deve ser de igual para igual”, observa.
Estereótipos à parte, as mulheres buscam cada vez mais as aulas de lutas, lotando as academias. A maioria busca um corpo “sarado”, mas muitas acabam se apaixonando pelo esporte. Foi o que ocorreu com Carolina Marinho Neto, 26 anos. “Procurei o boxe atrás de definição, mas, em um mês, o professor disse que eu levava jeito. Resolvi encarar profissionalmente há cinco meses. Hoje, treino MMA (sigla em inglês para mix de artes marciais)”, relata.
No mesmo barco segue Camila Soares, 21 anos. Quem a vê fora do tatame não imagina que a jovem luta jiu-jítsu, muay thai e luta greco-romana. “No tatame, sou igual a qualquer outro homem. Aliás, ai daquele que não trocar (treinar) de igual para igual comigo. Acaba levando”, brinca. Para Camila, o preconceito maior vem das mulheres. “Quando digo que pratico luta, elas me olham com cara feia, dizendo que isso é coisa de homem, que vou ficar mulher-macho”, conta. A psicóloga Janaína Gomes atesta que as mulheres são ainda mais preconceituosas com as lutadoras. “Isso se dá pela forma como ela vê a modalidade. Novamente, uma repetição de comportamento vindo de casa.”
Por Silvia Pacheco
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