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O veneno está na mesa

25/08/2011

O veneno está na mesa

Autor: Walter Sebastião - EM Cultura

Sílvio Tendler lança na internet documentário que critica uso de agrotóxicos.
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“Filme de graça, mais barato que no camelô. Copie e divulgue”, anuncia, brincalhão, o cineasta carioca Sílvio Tendler, de 61 anos. Ele se refere ao filme O veneno está na mesa, lançado diretamente na internet, que denuncia os problemas trazidos para a saúde e para a meio ambiente pelo consumo excessivo de agrotóxicos no Brasil. O país é apontado como o primeiro colocado no ranking mundial no uso desses produtos. “É David contra Golias”, acrescenta o diretor, lembrando que o filme abre a Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, que enfrenta a propaganda massiva de empresas transnacionais que lucram com a venda dos venenos e defensivos .

“O filme está bombando”, comemora Sílvio Tendler, contando que nos primeiros 15 dias foram mais de 30 mil acessos. Cifra modesta para os padrões da internet, mas que deixa eufórico o pessoal de cinema, acostumado a lutas dramáticas para ver seus trabalhos nas telas. “A internet é a forma possível de o cinema brasileiro acontecer”, afirma. “Estamos confinados. Noventa e oito por cento das salas estão em shoppings e se dedicam a um tipo exclusivo de cinema – o de entretenimento. Os chamados filmes-cabeça se expandiram e, mesmo tendo alta visibilidade, ficam restritos a periferias e cineclubes. Lançando meu filme via internet, estou corrigindo a distorção”, afirma o diretor.

O veneno está na mesa surgiu em jantar com o escritor Eduardo Galeano. O cineasta ouviu do uruguaio que o Brasil é o pais que mais consome agrotóxicos no planeta. “Decidi, na hora, fazer o filme sobre produtos que são prejudiciais às pessoas, contaminam a terra, penetram no lençol freático e envenenam as águas”, conta. “É assunto que todo mundo conhece, mas não fala porque o lobby das empresas transnacionais é forte. Meu filme tornou o tema público e todos resolveram discutir o assunto. Mostro que o rei está nu”, afirma.

Um fato chocou particularmente o cineasta: a existência de mães com leite contaminado por agrotóxicos em Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso do Sul. “Fui atrás e confirmei. Estão no filme mulheres contaminadas por produto proibido desde 1960”, conta. A contaminação pode estar relacionada ao trabalho em plantações que usam os produtos e ao consumo de alimentos contaminados. Ou, ainda, ao ato de respirar o produto lançado nas lavouras por aviões. A repercussão do filme fez a agenda de Tendler ficar lotada com convites para palestras, pedidos de DVD e propostas de mostrar a obra no cinema. “Estou agradavelmente surpreso com tudo”, diz.

“A internet ajuda a difundir filmes e ainda estimula a vontade de ir ao cinema. Está mudando muita coisa”, observa. “Sou rato do YouTube. Aprendo muito e vejo coisas que, em outros tempos, não teria acesso. O SNI, da minha época só existiu porque não tinha internet”, analisa, recordando-se do Serviço Nacional de Informação, órgão ligado à prática de espionagem e perseguição a militantes de esquerda durante a ditadura militar. “Quer saber hoje se uma pessoa é comunista? Vá ao Facebook. A própria pessoa coloca a informação lá”, ironiza.

Sílvio Tendler vai mais longe: protesta contra o fato de na hora de levantar o número de espectadores de um filme só se considerar a frequência em salas de cinema. “Pessoas assistem a filmes numa laje, nas escolas, universidades, cineclubes e não são consideradas público de cinema. Temos que qualificar e quantificar esse público”, defende. “O termômetro para avaliar obra de arte é a presença do trabalho em circuitos de prestígio, em bons museus etc. Políticas públicas de cultura, que medem o valor de um filme pelo mercado convencional, estão com 30 anos de atraso. Quem fica medindo número de consumidores é fabricante de sapatos”, critica.

História

Silvio Tendler é detentor das três maiores bilheterias de documentários na história do cinema brasileiro: O mundo mágico dos Trapalhões (1,8 milhão espectadores), Jango (1 milhão) e Os anos JK (800 mil).Os DVDs dos dois últimos estão reunidos numa mesma caixa. Em outro pacote estão as cinebiografias documentais sobre o geógrafo Milton Santos, o cineasta Glauber Rocha, o poeta Castro Alves e o líder da esquerda armada Carlos Marighella. Graduado em história pela Universidade de Sorbonne, na França, fez aperfeiçoamentos em fotografia no cinema e especialização em cinema aplicado às ciências sociais. Tem mestrado em cinema e história e doutorado em história, pela École des Hautes-Études, também na França. Tem mais de 40 filmes entre curtas, médias e longas-metragens, todos documentários. Está disponível no YouTube o curtíssimo Matzeiva juliano mer-khamis, sobre ator israelense, filho de pai árabe, que criou teatro na Palestina para filhos de mães judias e foi assassinado.

Saúde pública
Mais de 30 entidades da sociedade civil brasileira lançaram em abril a Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida. O objetivo é abrir debate sobre a falta de fiscalização no uso, consumo e venda de agrotóxicos no Brasil e denunciar os impactos dos venenos na saúde da população. Estima-se que 1 milhão de toneladas de venenos foi jogado nas lavouras em 2009. O que fez com que a aplicação exagerada de produtos químicos nas lavouras do país se transformasse em problemas de saúde pública e preservação da natureza. Os agrotóxicos ocupam o quarto lugar no ranking de intoxicações. Ficam atrás apenas dos medicamentos, acidentes com animais peçonhentos e produtos de limpeza.

ENTREVISTA/Sílvio Tendler
‘‘O país desconhece sua história’’

Você faz cinema político?
Meus documentários são ensaios autorais. É trabalho histórico, político, sonho que construí a partir de 1968, quando decidi fazer cinema, que nasceu da luta contra a ditadura militar e se tornou cinema político. Faltava no Brasil algo assim. O país desconhece sua história. É visão do Brasil feita por cineasta que trata o país com carinho, com filmes diferentes uns dos outros, inclusive na questão técnica.

Sente-se pioneiro no terreno do documentário?
Fui pioneiro do documentário que promoveu o encontro com o público. Não faço filmes para ficar na prateleira, todos os meus filmes têm público, têm função social, vida longa. Continuam fortes. Em Os trapalhões… peguei carona no sucesso deles. Jango e Os anos JK são filmes seminais de momento político em que a história estava sendo negada há duas décadas. Os filmes que abriram, potencializaram a luta contra a ditadura militar e pela redemocratização. O veneno está repetindo a experiência. A repercussão mostra que o cinema tem capacidade de mobilização.

Como você analisa o crescimento do cinema documental no Brasil?
Com satisfação. É da quantidade que vem a qualidade. É segmento forte do cinema em todo o mundo. São filmes que, diferentemente do jornalismo, permitem visão mais elaborada do real, com direito à subjetividade. Não se pode mentir, mas o cinema permite ver as coisas de outros pontos de vista.

Como será Tancredo, a travessia?
É continuação dos Anos JK e Jango, fechando trilogia sobre homens que lutaram pela democracia. JK foi a proposta de desenvolvimento com democracia. Jango colocou a necessidade de reformas sociais. Tancredo é sobre o homem que fez a transição para a democracia. Meu trabalho com o passado não é nostalgia, mas construção de futuro, colaboração para Brasil mais democrático.

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